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Perda de audição está ligada à demência — você escuta bem?

Problema é comum e um dos principais fatores de risco para o declínio cognitivo; entender seus sinais e tratá-lo pode ajudar a proteger o cérebro

O neurologista e pesquisador Wyllians Borelli, coordenador do Centro de Memória do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, compartilha os progressos e os desafios para preservar a saúde cerebral e se proteger de Alzheimer e outras doençaso seu favorito e saboreá-lo sem exagero.

“Aumenta o volume da televisão, por favor?” ou aquela clássica viradinha na cabeça para expôr o conduto auditivo para a conversa enquanto os olhos mantêm-se fixados no locutor tentando entender o que está sendo dito. Quem nunca, não é mesmo?

A perda auditiva tem muitas faces, e quase nunca aparece com um traje vermelho vibrante gritando na sala. Ela chega de fininho, quieta, fica alí, se acomoda bem em um canto, e dalí não sai mais. Esse déficit vai acompanhar a pessoa pelo resto da vida, em vários dos casos. Mas por que estamos falando disso, afinal?

O que é presbiacusia e por que ela é tão comum

Presbiacusia, ou perda auditiva relacionada à idade, é mais frequente do que você imagina. Dados epidemiológicos recentes indicam que aproximadamente 65% dos adultos com 71 anos ou mais apresentam algum grau de perda mensurável em ambos os ouvidos, sendo que esse número pode chegar a 78% quando considerada a perda auditiva em pelo menos um ouvido.

Isso é mais frequente do que pressão alta, diabetes, colesterol alto. O impacto disso? Vários. Mas, dentro do contexto dessa coluna, vamos falar sobre memória.

A perda auditiva no mundo é um dos maiores fatores de risco modificáveis em demência, e o Brasil não está de fora. Em termos globais, aproximadamente 7% dos casos de demência são atribuíveis a esse fator de risco, enquanto no Brasil a estimativa mais atual indica que 3.6% dos casos de demência são atribuíveis à perda auditiva.

Existem 3 possíveis explicações para a relação entre e perda auditiva e demência: aumento da demanda cognitiva, retração social, e potencial carga patológica semelhante ao Alzheimer.

Demanda cognitiva

Primeiro, o aumento da demanda cognitiva é encarado como o uso dos recursos cerebrais que poderiam ser usados para outros processos.

Explico: ao invés do seu cérebro usar os recursos para guardar memória, para manutenção das várias camadas e funções do cérebro, ele usa seus recursos para tentar entender, a muito custo, o que a pessoa da sua frente está tentando dizer.

E vale tudo: ler lábios, perceber a perna cruzada, os braços mexendo muito, o olhar para cima, a risada sem entender o que a pessoa disse. Isso tudo é demanda energética cerebral e acaba.

Retratação social

Segundo, somos seres sociais. Precisamos da interação, da conversa, do papo. Assim exercitamos tantas partes do cérebro: é planejamento do futuro, é lembrança de eventos do passado, é associações com o presente. E aquela vez que fomos à praia, lembra?

Perder a audição significa perder uma parte da nossa linguagem, e a consequência natural é a retração. Primeiro, vem o “hãn”; depois, a vergonha de pedir para repetir pela terceira vez; então, aquele riso de quem não entendeu, mas não quer dar pistas disso; por fim, melhor ficar em casa né? Não.

Danos neurológicos

E terceiro: o nervo auditivo, chamado de vestibulococlear, é parte do sistema nervoso, certo? Então, não se pode excluir que a mesma patologia que se acumula no cérebro (as placas que comentamos anteriormente) podem também danificar as vias auditivas.

A importância da prevenção e da avaliação auditiva

Como ainda não conseguimos curar a demência (e por consequência doença de Alzheimer, que é a maior causa de demência), nossa maior aliada ainda é a prevenção.

Se temos na perda auditiva uma grande causa de demência bem estabelecida e sabemos que até 78% dos idosos têm o problema, o que estamos esperando para começar a avaliar a audição dos idosos? No seu pai, mãe, irmã(o), avós.

Uma avaliação com audiometria pode ser muito esclarecedora e pode, em alguns casos, reduzir a chance de ter demência, como mostrado nesse grande estudo que identificou déficits, tratou, e acompanhou a cognição dos idosos.

Ainda que o resultado principal tenha ficado em cima do muro, quando se separou em grupos de maior risco, o benefício foi claro – usar aparelho auditivo reduz o declínio cognitivo em idosos.

FONTE: saude.abril.com.br

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